Bonfim

Um blogue de vitorianos

sexta-feira, março 04, 2005

O que sofre quem não conhece o nome dos jogadores

O exercício da escrita dificilmente contorna a utilização da referencia a um músculo - orgão maior da materialização dessa coisa estranha que é a emoção. O coração, músculo capital, cujos humores nos orientam os dias, acaba por ser o ditador, o nosso ditador pessoal, que sente, por vezes, a necessidade de impor a sua presença e autoridade através de "esticões" forma outra de dizer: "tem lá atenção, ó rapaz, cuidadinho". Damos-lhe muito trabalho, é certo.
A verdade é que este músculo, este capitão das emoções, compreende a necessidade de horas extraordinárias, compreende a necessidade de esforço acrescido, de maior resistência nos momentos mágicos da bola.
Lá está a peleja, ao domingo, ouvida ao longe, pela rádio que por esses dias a imagem era rara e não dada às artes do ecrã.
O relator em relato, em corrida, as palavras disparadas, matraqueadas. As jogadas, os jogadores em sucessão, a bola que desaparece, o anúncio que surge "gaita, acabem lá com isso", a confusão, não conhecer os nomes dos jogadores, a jogada perigosa, o relator anunciando a iminência do golo, a bola dominada pelo artista "mas de que equipa, valha-nos Deus", o coração que dispara em ritmo demencial, o ouvinte desorientado, a tensão, o golo por fim, o grito do homem da rádio, a palavra "golo" solta pelas ondas hertzianas em fôlego interminavel, o ouvinte esgotado tem a respiração em suspenso, confuso, não sabe se feliz se em desespero, em segundos percebe a necessidade de conhecer os nomes dos jogadores do seu Vitória, o relator que esgota o ar dos pulmões numa sessão de palavras assobiadas, por fim a revelação: "Golo do vitória, caramba".
O ouvinte, já não em tensão, já desgastado, afaga o peito em jeitos de agradecimento cumplice com o músculo - esse irmão no sofrimento que lhe aguenta estas exigências tamanhas - estão os dois cansados, arrasados, mas felizes: ganhou o Vitória de Setúbal, chiça!